A sabedoria medieval era voltada para o desenvolvimento do espírito e nenhuma forma de saber deveria ser desvalorizada. Foi justamente por essa abertura sem limites às diversas fontes de conhecimento, que a Igreja Católica perseguiu levando à fogueira aquelas que julgava anti-cristãs. Obviamente, o domínio da leitura e da escrita, então majoritariamente em Latim, era privilégio para poucos. Até tempos bem recentes, os nascidos em famílias menos favorecidas, que desejavam uma maior instrução, entravam para o sacerdócio, onde teriam acesso ao estudo e ao ócio necessário ao pensamento. Na Idade Média, então, eram os mosteiros os redutos da cultura.
Entretanto, com o tempo, os domínios da cultura ultrapassaram os mosteiros e ganharam novos adeptos, homens vulgares que falavam e logo começaram a escrever em suas línguas vulgares. Talvez, o mais famoso deles, seja Dante Alighieri (1265-1321). Ele é considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana por ter ousado escrever com a língua falada. É na Idade Média, portanto, que se estabelecem as línguas nacionais, a partir dos reinos fortes e duradouros, que vieram a formar o que hoje são as Nações. Existia, assim, o latim, herdado do Império Romano; e as línguas vulgares faladas pelo povo, que em cada região tornavam-se únicas devido às misturas específicas pelas quais passavam. De modo que cada língua tem sua história e suas heranças. Quando ainda não se ousava escrever em outra língua que não o latim, Dante entre outros, como veremos abaixo, passaram a registrar novas gramáticas.
Os escritos medievais eram sempre iluminados, de modo que ora as palavras eram realçadas pelas imagens, ora o inverso, sendo as imagens realçadas pelas palavras. Letra e imagem compunham um mesmo espaço de modo artesanal e artístico, como na linguagem hermética da Alquimia ou da Cabala. A estética das palavras estava intimamente relacionada à estética das imagens; e as iluminuras, com suas miniaturas, são características deste período justamente por esta singularidade.
A iluminura acima retrata o filósofo medieval Ramon Llull, que conversa com seu discípulo Thomas Lê Myésier a respeito de seus livros (detalhe da miniatura 11 do Breviculum, perg. 92). Ramon Llull, que está sendo recentemente estudado e traduzido por diversos grupos de estudos medievalistas, nasceu em 1232, e é originário de Palma de Maiorca. Falecido em 1316, foi um dos autores mais prolíficos da Idade Média, tendo escrito cerca de 300 obras sobre educação, retórica, gramática, lógica, ética, botânica, filosofia, teologia, música, astronomia e política; escrevendo inclusive uma autobiografia, Vida Coetânea. Na idade aproximada dos trinta anos, converteu-se ao cristianismo, tomando como missão a evangelização, que acreditava ser possível através do amor e do diálogo. Fez diversas viagens ao oriente, onde tentou através da lógica do discurso dialogar com os muçulmanos para os fazer crer na Santíssima Trindade. Chegou a ser preso e quase condenado à morte pelos muçulmanos que tentava converter com seu discurso cristão. Numa destas viagens ao oriente, entre 1301 e 1307, Llull escreveu as seguintes obras (Muçulmanos e cristãos no diálogo Luliano, Ricardo da Costa, in: Anales del Seminario de Historia de la Filosofía (UCM), vol. 19 (2002) p. 67-96.):
1. Rhetorica
nova,
2. Liber de natura,
3. Libre què deu hom creure de Déu (Liber quid debet
homo de Deo credere),
4. Mil Proverbis,
5. Lògica nova,
6. Disputatio fidei et intellectus,
7. Liber de lumine,
8. Liber de regionibus sanitatis et infirmitatis,
9. Ars de jure,
10. Liber de intellectu,
11. Liber de voluntate,
12. Liber de memoria,
13. Liber ad probandum aliquos articulos fidei catholicae per
syllogisticas rationes (=Liber de syllogismis),
14. Liber de significatione,
15. Liber de consilio,
16. De investigatione actaum divinarum rationum,
17. Liber de praedestinatione et libero arbitrio,
18. Liber de praedicatione (=Ars magna
praedicationis),
19. Liber de ascensu et descensu intellectus,
20. Liber de demonstratione per aequiparantiam,
21. Liber
de fine,
22. Liber pracdicationis contra judaeos (=Liber de
erroribus judaeorum, ou Liber de Trinitate et
Incarnatione),
23. Liber de Trinitate et Incarnatione,
24. Lectura Artis quae intitulatur Brevis practice Tabulae
generalis,
25. Ars
brevis (Art breu),
26. Ars brevis juris civilis (= Ars brevis quae est de
inventione mediorum juris civilis),
27. Liber de venatione substantiae, accidentis et
compositi,
28. Ars generalis ultima,
29. Disputatio Raymundi christiani et Hamar saraceni (=
De fide catholica contra sarracenos),
30. Liber de centum signis Dei,
31. Liber clericorum (Libre de clerecia) (BONNER,
1989, vol II: 564-569).
O exemplo serve, sobretudo, para mostrar o clima de efervescência intelectual propiciado pela Idade Média enquanto berço formador tanto das línguas nacionais como das primeiras academias e grêmios que possibilitaram o esplendor cultural e artístico do Renascimento.
Comentários