Home Data de criação : 08/08/25 Última atualização : 08/12/08 13:49 / 13 Artigos publicados
 

Da Arte dos Mosteiros aos Castelos e Catedrais  escrito em domingo 07 dezembro 2008 14:17

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A Idade Média continua sendo tratada, em muitos estudos superficiais, como um período de obscurantismo e barbáries. Entretanto, pesquisadores têm redescoberto a riqueza medieval através de traduções de manuscritos que revelam um período de vasta produção intelectual e de efervescência filosófica.

 

Inicialmente, o domínio da escrita latina era restrito aos monges copistas, responsáveis ora pela tradução, ora pela compilação de originais da filosofia grega e latina da Antiguidade clássica. Entre os séculos V e XII, os redutos da cultura na Europa ocidental estavam reservados aos mosteiros. A atividade monástica de então está bem retratada no romance histórico O nome da rosa de Umberto Eco. Portanto, com a caída do Império Romano e o surgimento da Idade Média, a figura do artista sofreu uma regressão, principalmente em se tratando do período inicial da Idade Média. Podemos ressaltar três fatores de importância crucial para a desvalorização da figura do artista neste período: primeiramente, em termos teóricos, a estética cristã, conforme Santo Agostinho e seguindo Platão, continuaram a sobre valorizar a música e a poesia em detrimento da escultura e da pintura. Também a liberdade de criação, conquistada pelo artista clássico, sendo substituída pela cópia e repetição de formas estabelecidas anulou a possibilidade de renovação artística. Ainda mais que a severa moral cristã desses primeiros séculos impossibilitava a criação de um mercado de arte com coleções, encomendas e modas como acontecera durante o Império Romano.

 

Assim, somente na Alta Idade Média a figura do artesão medieval pode ser dissociada dos mosteiros. Principalmente a partir do Império Carolíngio em que Carlos Magno, inspirado da Roma antiga, assumiu um projeto imperial e universal, o que favoreceu à centralização da arte. Com as mudanças carolíngias o trabalho artístico dos mosteiros deixou de ser interno, de modo que os mosteiros se converteram em centros de ensino e aperfeiçoamento para artesãos que realizavam trabalhos itinerantes em cortes e feudos, e posteriormente, nas primeiras cidades medievais. Foi graças a esses trabalhos itinerantes que o estilo Românico se desenvolveu e pôde ser internacionalizado durante a Idade Média.

 

Com o aparecimento das cidades medievais, durante os séculos XII e XIII, tanto a situação do artista-artesão quanto o panorama da arte européia de então mudaram drasticamente. Durante um período de transição, houve certa rivalidade entre os centros tradicionais de formação artística dos mosteiros e as novas lojas, que a formação das cidades havia possibilitado aparecer. Logo os artesãos seculares das cidades substituíram definitivamente os monges e os estilos Bizantino e Românico deram lugar ao Gótico. Assim, a construção de mosteiros e igrejas rurais cedeu lugar às grandes catedrais urbanas.

 

A imagem acima é do interior da Basílica de São Marcos. A mais famosa das igrejas de Veneza tem sua história mesclada com a miscelânea da Idade Média. Localizada na Praça de São Marcos (Piazza di San Marco), ao lado do Palácio dos Doges – primeiros magistrados da República veneziana - a basílica é a sede da arquidiocese católica romana de Veneza desde 1807. São Marcos Evangelista foi o único que não conheceu Jesus, mas pregou seu evangelho a partir do que escutava dos outros evangelistas. A construção, temporária, da primeira igreja no local foi no ano de 828, já no Palácio dos Doges, a partir das supostas relíquias de São Marcos trazidas de Alexandria por mercadores venezianos. Em 832, um novo edifício foi erguido, no local da atual basílica; esta igreja foi incendiada durante uma rebelião em 976, reconstruída em 978 e, mais uma vez, em 1063, no que viria a ser a base do atual edifício.

 

A igreja apresenta uma planta em cruz grega, baseada nos exemplos da Hagia Sophia (transformada em mesquita em 1453, e museu em 1935) e da Basílica dos Apóstolos, ambas em Constantinopla. Possui um coro elevado acima de uma cripta. A planta do interior consiste em três naves longitudinais e três transversais. Um baldaquino cobre o altar principal, com colunas decoradas com relevos do século XI. O retábulo é a famosa Pala d´Oro - um trabalho em metal bizantino de 1105. Atrás do altar principal há um segundo altar com colunas de alabastro. Os cercados do coro, acima dos quais há três relevos de Sansovino, apresentam obra de marchetaria de Sebastiano Schiavone. Os dois púlpitos de mármore da nave são decorados com estatuetas dos irmãos Massegne (1394).

 

Apesar de a estrutura básica do edifício ter sido pouco alterada, cada século contribuiu para o seu adorno. Os navios mercadores vindos do oriente, principalmente, no século XIV, traziam colunas, capitéis, frisos e esculturas, muitas delas mais antigas que a própria Basílica. Aos poucos, a alvenaria exterior de tijolos foi recoberta com mármores e outros elementos, além disso, uma nova fachada foi erguida e os domos foram cobertos com estruturas mais altas em madeira, de modo a tornar o conjunto mais harmônico com o novo estilo gótico do Palácio dos Doges. Por dentro, os mosaicos e as pinturas contendo ouro, bronze e uma grande variedade de pedras misturam os estilos bizantino, românico e gótico.

 

Um exemplo notável são os Cavalos de São Marcos, acrescentados em torno de 1254 são obra da Antiguidade Clássica, devem ter adornado o Arco de Trajano, e são atribuidos por Plínio, o velho, ao escultor grego Lísipo. Foram levados a Roma no século II por Trajano. Séculos depois, foram enviados a Veneza pelo Doge Enrico Dandolo como parte do saque de Constantinopla durante a Quarta Cruzada. Precisaram ter suas cabeças removidas para o transporte, o que resultou numa alteração dos originais, já que a eles foram acrescidos adornos nos pescoços para cobrir os cortes necessários. Posteriormente, em 1797, foram retirados por Napoleão, e colocados no Arco do Triunfo em París, onde ainda hoje há réplicas destes, sendo finalmente devolvidos em 1815. Na Basílica, em 1990, foram substituídos por réplicas em fibra de vidro, ficando os originais numa sala de exposição por motivos de preservação.

A Basílica de São Marcos tem sua história perpassada pela história da Idade Média e representa a revolução cultural que o período viveu entre influências clássicas resgatadas, traduzidas e copiadas, e o desenvolver da tradição cristã em contato constante com o oriente e principalmente, com as outras duas vias do monoteísmo, o islamismo e o judaísmo.

 

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