O surgimento da escrita, em quase todas as civilizações, iniciou-se, invariavelmente, por desenhos, pictogramas e suas combinações. Foi assim com os sumérios, os egípcios e ainda o é, com os chineses, cuja escrita, curiosamente é um caso único: nascida por volta do segundo milênio a.C., codificada por volta de 1.500 antes de nossa era e constituída em sistema coerente entre 200 a.C. e 200 d.C., é perceptivelmente a mesma que os chineses lêem e escrevem hoje (Georges Jean, A Escrita: Memória dos homens, p.45.).
A escrita pictográfica apresenta uma leitura imagética: nela, imagem e grafia geram a idéia representada, formando assim um ideograma. Além disso, as combinações aumentam as possibilidades de novas idéias. A junção dos pictogramas para ‘montanha’ e ‘fogo’ formam o ideograma ‘vulcão’. O pictograma ‘árvore’ desenhado duas vezes forma o ideograma ‘bosque’; e três vezes, ‘floresta’. E as cominações não são todas as vezes óbvia. Da associação dos pictogramas ‘poder’ e ‘água’ surge o ideograma ‘rio’.
No princípio da aventura da escrita, portanto, era a imagem e não o verbo. A arte de representar objetos ou idéias derivou de uma certa mímesis. Sendo imagem e texto intrínsecos, a caligrafia dos caracteres era por si só uma arte; e as composições bem elaboradas, verdadeiros poemas visuais cujas imagens significantes remetiam diretamente aos respectivos referentes. Sendo, portanto, esses desenhos da escrita, verdadeiros símbolos mágicos.
A primeira atitude do homem diante da linguagem foi de confiança: o signo e o objeto representado eram a mesma coisa. A escultura era uma cópia do modelo; a forma ritual uma reprodução da realidade, capaz de engendrá-la. Falar era re-criar o objeto aludido. A pronúncia exata das palavras mágicas era uma das primeiras condições para sua eficácia. A necessidade de preservar a linguagem sagrada explica o nascimento da gramática, na Índia védica. Porém, ao cabo dos séculos, os homens perceberam que entre as coisas e seus nomes abria-se um abismo. As ciências da linguagem conquistaram sua autonomia tão logo cessou a crença na identidade entre o objeto e seu signo. A primeira tarefa do pensamento consistiu em fixar um significado preciso e único para os vocábulos; e a gramática se converteu no primeiro degrau da lógica. Mas as palavras são rebeldes à definição. E ainda não cessou a batalha entre a ciência e linguagem. (Octávio Paz, O arco e a lira)
O abismo entre o signo e o objeto representado teve a enorme contribuição do aparecimento do alfabeto, que, paradoxalmente, marca a possibilidade da circulação e democratização do saber. Para escrever e ler pictogramas é necessário conhecer um grande número de signos, ao passo que o alfabeto funciona amplamente: com cerca de trinta signos, pode-se escrever tudo. O alfabeto cria a escrita fonográfica letra por letra, que permite reproduzir, salvo pequenas alterações feitas por sinais e acentos, todas as línguas faladas. Tanto que seu aperfeiçoamento pela lingüística moderna levou à criação do alfabeto lingüístico, que possibilita transcrever a pronuncia correta de todas as línguas faladas.
Acredita-se que tenha sido fenício o primeiro alfabeto não-cuneiforme, por volta de 1.200 a.C. Cinco séculos mais tarde, o alfabeto aramaico surge, semelhante em alguns detalhes ao utilizado pelos fenícios. Outro século mais tarde, é a vez do hebraico, que parece originar-se do aramaico. Os três alfabetos tinham em comum o fato de serem compostos apenas por consoantes e serem lidos da direita para a esquerda. Além disso, o aramaico e o hebraico são as fontes principais da religião cristã, de onde foram traduzidos os textos bíblicos mais antigos.
No Tempo-Eixo, as religiões monoteístas vão surgir e se espalhar, partindo do Mediterrâneo, onde fica a terra santa. Um Deus único, criador e todo-poderoso, irá falar aos seus eleitos e deixará por escritos suas promessas e mandamentos. A adesão ao Deus do deserto, dará ao povo judeu uma consciência endógena, fechada e excludente, de caráter centrípeto. Sua iconoclastia (proibição da representação do divino através de imagens) encontrará compensação nos mistérios da escrita, que velarão os segredos da antiga Cabala, ainda hoje tão misteriosa.
Contrariamente ao Hebraísmo, porém sucessor deste, o Cristianismo desenvolveu um processo expansivo e cosmopolita. Além disso, veio a ter na pessoa de Jesus Cristo, no que se refere à humanização da divindade, uma imagem corpórea que facilitou e permitiu a representação plástica negada aos judeus. Somente com a Reforma, os cristãos irão protestar contra a idolatria gerada pela permissão do imaginário cristão. O Islamismo, terceiro expoente monoteísta, surgiu depois que Alá ditou a Maomé os primeiros textos do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, por volta do ano 650 d.C. Já escritos em língua árabe (cuja origem ainda é incerta, mas há quem diga ter derivado também do alfabeto fenício modificado), o Alcorão é ainda hoje ensinado em sua escrita original, do contrário, parte de sua poética é perdida com a tradução. A religião muçulmana, ao proibir representar o rosto de Deus ou do Profeta, fez com que a escrita se tornasse o elemento decorativo essencial das mesquitas e de todos os outros monumentos. O árabe, também é escrito e lido da direita pra esquerda e não possui vogais. Suas 18 letras, associadas a pontos, somam um total de 29. A imagem no topo deste artigo é um dos 99 nomes de Alá em árabe, e em si mesma, um poema visual dessa escrita prodigiosa que se presta às mais variadas metamorfoses.
Assim, a escrita quando surge encontra como missão registrar e preservar as escrituras sagradas do Monoteísmo na voz de um Deus todo-poderoso, que falou a alguns eleitos deixando a estes a missão de difundir seus ensinamentos. Não é a toa que a palavra Escritura, designa, antes de qualquer coisa, textos sagrados.
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