As Letras Iluminadas da Idade Média

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A sabedoria medieval era voltada para o desenvolvimento do espírito e nenhuma forma de saber deveria ser desvalorizada. Foi justamente por essa abertura sem limites às diversas fontes de conhecimento, que a Igreja Católica perseguiu levando à fogueira aquelas que julgava anti-cristãs. Obviamente, o domínio da leitura e da escrita, então majoritariamente em Latim, era privilégio para poucos. Até tempos bem recentes, os nascidos em famílias menos favorecidas, que desejavam uma maior instrução, entravam para o sacerdócio, onde teriam acesso ao estudo e ao ócio necessário ao pensamento. Na Idade Média, então, eram os mosteiros os redutos da cultura.

 

Entretanto, com o tempo, os domínios da cultura ultrapassaram os mosteiros e ganharam novos adeptos, homens vulgares que falavam e logo começaram a escrever em suas línguas vulgares. Talvez, o mais famoso deles, seja Dante Alighieri (1265-1321). Ele é considerado o primeiro e maior poeta da língua italiana por ter ousado escrever com a língua falada. É na Idade Média, portanto, que se estabelecem as línguas nacionais, a partir dos reinos fortes e duradouros, que vieram a formar o que hoje são as Nações. Existia, assim, o latim, herdado do Império Romano; e as línguas vulgares faladas pelo povo, que em cada região tornavam-se únicas devido às misturas específicas pelas quais passavam. De modo que cada língua tem sua história e suas heranças. Quando ainda não se ousava escrever em outra língua que não o latim, Dante entre outros, como veremos abaixo, passaram a registrar novas gramáticas.

 

Os escritos medievais eram sempre iluminados, de modo que ora as palavras eram realçadas pelas imagens, ora o inverso, sendo as imagens realçadas pelas palavras. Letra e imagem compunham um mesmo espaço de modo artesanal e artístico, como na linguagem hermética da Alquimia ou da Cabala. A estética das palavras estava intimamente relacionada à estética das imagens; e as iluminuras, com suas miniaturas, são características deste período justamente por esta singularidade.

 

A iluminura acima retrata o filósofo medieval Ramon Llull, que conversa com seu discípulo Thomas Lê Myésier a respeito de seus livros (detalhe da miniatura 11 do Breviculum, perg. 92). Ramon Llull, que está sendo recentemente estudado e traduzido por diversos grupos de estudos medievalistas, nasceu em 1232, e é originário de Palma de Maiorca. Falecido em 1316, foi um dos autores mais prolíficos da Idade Média, tendo escrito cerca de 300 obras sobre educação, retórica, gramática, lógica, ética, botânica, filosofia, teologia, música, astronomia e política; escrevendo inclusive uma autobiografia, Vida Coetânea. Na idade aproximada dos trinta anos, converteu-se ao cristianismo, tomando como missão a evangelização, que acreditava ser possível através do amor e do diálogo. Fez diversas viagens ao oriente, onde tentou através da lógica do discurso dialogar com os muçulmanos para os fazer crer na Santíssima Trindade. Chegou a ser preso e quase condenado à morte pelos muçulmanos que tentava converter com seu discurso cristão. Numa destas viagens ao oriente, entre 1301 e 1307, Llull escreveu as seguintes obras (Muçulmanos e cristãos no diálogo Luliano, Ricardo da Costa, in: Anales del Seminario de Historia de la Filosofía (UCM), vol. 19 (2002) p. 67-96.):

 

1. Rhetorica nova,
2. Liber de natura,
3. Libre què deu hom creure de Déu (Liber quid debet homo de Deo credere),
4.
Mil Proverbis,
5. Lògica nova,
6. Disputatio fidei et intellectus,
7. Liber de lumine,
8. Liber de regionibus sanitatis et infirmitatis,
9. Ars de jure,
10. Liber de intellectu,
11. Liber de voluntate,
12. Liber de memoria,
13. Liber ad probandum aliquos articulos fidei catholicae per syllogisticas rationes (=Liber de syllogismis),
14. Liber de significatione,
15. Liber de consilio,
16. De investigatione actaum divinarum rationum,
17. Liber de praedestinatione et libero arbitrio,
18. Liber de praedicatione (=Ars magna praedicationis),
19. Liber de ascensu et descensu intellectus,
20. Liber de demonstratione per aequiparantiam,
21. Liber de fine,
22. Liber pracdicationis contra judaeos (=Liber de erroribus judaeorum, ou Liber de Trinitate et Incarnatione),
23. Liber de Trinitate et Incarnatione,
24. Lectura Artis quae intitulatur Brevis practice Tabulae generalis,
25. Ars brevis (Art breu),
26. Ars brevis juris civilis (= Ars brevis quae est de inventione mediorum juris civilis),
27. Liber de venatione substantiae, accidentis et compositi,
28. Ars generalis ultima,
29. Disputatio Raymundi christiani et Hamar saraceni (= De fide catholica contra sarracenos),
30. Liber de centum signis Dei,
31. Liber clericorum (Libre de clerecia) (BONNER, 1989, vol II: 564-569).

 

O exemplo serve, sobretudo, para mostrar o clima de efervescência intelectual propiciado pela Idade Média enquanto berço formador tanto das línguas nacionais como das primeiras academias e grêmios que possibilitaram o esplendor cultural e artístico do Renascimento.

 

 

segunda 08 dezembro 2008 10:49


Da Arte dos Mosteiros aos Castelos e Catedrais

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A Idade Média continua sendo tratada, em muitos estudos superficiais, como um período de obscurantismo e barbáries. Entretanto, pesquisadores têm redescoberto a riqueza medieval através de traduções de manuscritos que revelam um período de vasta produção intelectual e de efervescência filosófica.

 

Inicialmente, o domínio da escrita latina era restrito aos monges copistas, responsáveis ora pela tradução, ora pela compilação de originais da filosofia grega e latina da Antiguidade clássica. Entre os séculos V e XII, os redutos da cultura na Europa ocidental estavam reservados aos mosteiros. A atividade monástica de então está bem retratada no romance histórico O nome da rosa de Umberto Eco. Portanto, com a caída do Império Romano e o surgimento da Idade Média, a figura do artista sofreu uma regressão, principalmente em se tratando do período inicial da Idade Média. Podemos ressaltar três fatores de importância crucial para a desvalorização da figura do artista neste período: primeiramente, em termos teóricos, a estética cristã, conforme Santo Agostinho e seguindo Platão, continuaram a sobre valorizar a música e a poesia em detrimento da escultura e da pintura. Também a liberdade de criação, conquistada pelo artista clássico, sendo substituída pela cópia e repetição de formas estabelecidas anulou a possibilidade de renovação artística. Ainda mais que a severa moral cristã desses primeiros séculos impossibilitava a criação de um mercado de arte com coleções, encomendas e modas como acontecera durante o Império Romano.

 

Assim, somente na Alta Idade Média a figura do artesão medieval pode ser dissociada dos mosteiros. Principalmente a partir do Império Carolíngio em que Carlos Magno, inspirado da Roma antiga, assumiu um projeto imperial e universal, o que favoreceu à centralização da arte. Com as mudanças carolíngias o trabalho artístico dos mosteiros deixou de ser interno, de modo que os mosteiros se converteram em centros de ensino e aperfeiçoamento para artesãos que realizavam trabalhos itinerantes em cortes e feudos, e posteriormente, nas primeiras cidades medievais. Foi graças a esses trabalhos itinerantes que o estilo Românico se desenvolveu e pôde ser internacionalizado durante a Idade Média.

 

Com o aparecimento das cidades medievais, durante os séculos XII e XIII, tanto a situação do artista-artesão quanto o panorama da arte européia de então mudaram drasticamente. Durante um período de transição, houve certa rivalidade entre os centros tradicionais de formação artística dos mosteiros e as novas lojas, que a formação das cidades havia possibilitado aparecer. Logo os artesãos seculares das cidades substituíram definitivamente os monges e os estilos Bizantino e Românico deram lugar ao Gótico. Assim, a construção de mosteiros e igrejas rurais cedeu lugar às grandes catedrais urbanas.

 

A imagem acima é do interior da Basílica de São Marcos. A mais famosa das igrejas de Veneza tem sua história mesclada com a miscelânea da Idade Média. Localizada na Praça de São Marcos (Piazza di San Marco), ao lado do Palácio dos Doges – primeiros magistrados da República veneziana - a basílica é a sede da arquidiocese católica romana de Veneza desde 1807. São Marcos Evangelista foi o único que não conheceu Jesus, mas pregou seu evangelho a partir do que escutava dos outros evangelistas. A construção, temporária, da primeira igreja no local foi no ano de 828, já no Palácio dos Doges, a partir das supostas relíquias de São Marcos trazidas de Alexandria por mercadores venezianos. Em 832, um novo edifício foi erguido, no local da atual basílica; esta igreja foi incendiada durante uma rebelião em 976, reconstruída em 978 e, mais uma vez, em 1063, no que viria a ser a base do atual edifício.

 

A igreja apresenta uma planta em cruz grega, baseada nos exemplos da Hagia Sophia (transformada em mesquita em 1453, e museu em 1935) e da Basílica dos Apóstolos, ambas em Constantinopla. Possui um coro elevado acima de uma cripta. A planta do interior consiste em três naves longitudinais e três transversais. Um baldaquino cobre o altar principal, com colunas decoradas com relevos do século XI. O retábulo é a famosa Pala d´Oro - um trabalho em metal bizantino de 1105. Atrás do altar principal há um segundo altar com colunas de alabastro. Os cercados do coro, acima dos quais há três relevos de Sansovino, apresentam obra de marchetaria de Sebastiano Schiavone. Os dois púlpitos de mármore da nave são decorados com estatuetas dos irmãos Massegne (1394).

 

Apesar de a estrutura básica do edifício ter sido pouco alterada, cada século contribuiu para o seu adorno. Os navios mercadores vindos do oriente, principalmente, no século XIV, traziam colunas, capitéis, frisos e esculturas, muitas delas mais antigas que a própria Basílica. Aos poucos, a alvenaria exterior de tijolos foi recoberta com mármores e outros elementos, além disso, uma nova fachada foi erguida e os domos foram cobertos com estruturas mais altas em madeira, de modo a tornar o conjunto mais harmônico com o novo estilo gótico do Palácio dos Doges. Por dentro, os mosaicos e as pinturas contendo ouro, bronze e uma grande variedade de pedras misturam os estilos bizantino, românico e gótico.

 

Um exemplo notável são os Cavalos de São Marcos, acrescentados em torno de 1254 são obra da Antiguidade Clássica, devem ter adornado o Arco de Trajano, e são atribuidos por Plínio, o velho, ao escultor grego Lísipo. Foram levados a Roma no século II por Trajano. Séculos depois, foram enviados a Veneza pelo Doge Enrico Dandolo como parte do saque de Constantinopla durante a Quarta Cruzada. Precisaram ter suas cabeças removidas para o transporte, o que resultou numa alteração dos originais, já que a eles foram acrescidos adornos nos pescoços para cobrir os cortes necessários. Posteriormente, em 1797, foram retirados por Napoleão, e colocados no Arco do Triunfo em París, onde ainda hoje há réplicas destes, sendo finalmente devolvidos em 1815. Na Basílica, em 1990, foram substituídos por réplicas em fibra de vidro, ficando os originais numa sala de exposição por motivos de preservação.

A Basílica de São Marcos tem sua história perpassada pela história da Idade Média e representa a revolução cultural que o período viveu entre influências clássicas resgatadas, traduzidas e copiadas, e o desenvolver da tradição cristã em contato constante com o oriente e principalmente, com as outras duas vias do monoteísmo, o islamismo e o judaísmo.

 

domingo 07 dezembro 2008 11:17


As Escrituras Sagradas do Monoteísmo

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O surgimento da escrita, em quase todas as civilizações, iniciou-se, invariavelmente, por desenhos, pictogramas e suas combinações. Foi assim com os sumérios, os egípcios e ainda o é, com os chineses, cuja escrita, curiosamente é um caso único: nascida por volta do segundo milênio a.C., codificada por volta de 1.500 antes de nossa era e constituída em sistema coerente entre 200 a.C. e 200 d.C., é perceptivelmente a mesma que os chineses lêem e escrevem hoje (Georges Jean, A Escrita: Memória dos homens, p.45.).

 

A escrita pictográfica apresenta uma leitura imagética: nela, imagem e grafia geram a idéia representada, formando assim um ideograma. Além disso, as combinações aumentam as possibilidades de novas idéias. A junção dos pictogramas para ‘montanha’ e ‘fogo’ formam o ideograma ‘vulcão’. O pictograma ‘árvore’ desenhado duas vezes forma o ideograma ‘bosque’; e três vezes, ‘floresta’. E as cominações não são todas as vezes óbvia. Da associação dos pictogramas ‘poder’ e ‘água’ surge o ideograma ‘rio’.

 

No princípio da aventura da escrita, portanto, era a imagem e não o verbo. A arte de representar objetos ou idéias derivou de uma certa mímesis. Sendo imagem e texto intrínsecos, a caligrafia dos caracteres era por si só uma arte; e as composições bem elaboradas, verdadeiros poemas visuais cujas imagens significantes remetiam diretamente aos respectivos referentes. Sendo, portanto, esses desenhos da escrita, verdadeiros símbolos mágicos.

 

 

 A primeira atitude do homem diante da linguagem foi de confiança: o signo e o objeto representado eram a mesma coisa. A escultura era uma cópia do modelo; a forma ritual uma reprodução da realidade, capaz de engendrá-la. Falar era re-criar o objeto aludido. A pronúncia exata das palavras mágicas era uma das primeiras condições para sua eficácia. A necessidade de preservar a linguagem sagrada explica o nascimento da gramática, na Índia védica. Porém, ao cabo dos séculos, os homens perceberam que entre as coisas e seus nomes abria-se um abismo. As ciências da linguagem conquistaram sua autonomia tão logo cessou a crença na identidade entre o objeto e seu signo. A primeira tarefa do pensamento consistiu em fixar um significado preciso e único para os vocábulos; e a gramática se converteu no primeiro degrau da lógica. Mas as palavras são rebeldes à definição. E ainda não cessou a batalha entre a ciência e linguagem. (Octávio Paz, O arco e a lira)

 

 

O abismo entre o signo e o objeto representado teve a enorme contribuição do aparecimento do alfabeto, que, paradoxalmente, marca a possibilidade da circulação e democratização do saber. Para escrever e ler pictogramas é necessário conhecer um grande número de signos, ao passo que o alfabeto funciona amplamente: com cerca de trinta signos, pode-se escrever tudo. O alfabeto cria a escrita fonográfica letra por letra, que permite reproduzir, salvo pequenas alterações feitas por sinais e acentos, todas as línguas faladas. Tanto que seu aperfeiçoamento pela lingüística moderna levou à criação do alfabeto lingüístico, que possibilita transcrever a pronuncia correta de todas as línguas faladas.

 

 

Acredita-se que tenha sido fenício o primeiro alfabeto não-cuneiforme, por volta de 1.200 a.C. Cinco séculos mais tarde, o alfabeto aramaico surge, semelhante em alguns detalhes ao utilizado pelos fenícios. Outro século mais tarde, é a vez do hebraico, que parece originar-se do aramaico. Os três alfabetos tinham em comum o fato de serem compostos apenas por consoantes e serem lidos da direita para a esquerda. Além disso, o aramaico e o hebraico são as fontes principais da religião cristã, de onde foram traduzidos os textos bíblicos mais antigos.

 

 

No Tempo-Eixo, as religiões monoteístas vão surgir e se espalhar, partindo do Mediterrâneo, onde fica a terra santa. Um Deus único, criador e todo-poderoso, irá falar aos seus eleitos e deixará por escritos suas promessas e mandamentos. A adesão ao Deus do deserto, dará ao povo judeu uma consciência endógena, fechada e excludente, de caráter centrípeto. Sua iconoclastia (proibição da representação do divino através de imagens) encontrará compensação nos mistérios da escrita, que velarão os segredos da antiga Cabala, ainda hoje tão misteriosa.

 

 

Contrariamente ao Hebraísmo, porém sucessor deste, o Cristianismo desenvolveu um processo expansivo e cosmopolita. Além disso, veio a ter na pessoa de Jesus Cristo, no que se refere à humanização da divindade, uma imagem corpórea que facilitou e permitiu a representação plástica negada aos judeus. Somente com a Reforma, os cristãos irão protestar contra a idolatria gerada pela permissão do imaginário cristão. O Islamismo, terceiro expoente monoteísta, surgiu depois que Alá ditou a Maomé os primeiros textos do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, por volta do ano 650 d.C. Já escritos em língua árabe (cuja origem ainda é incerta, mas há quem diga ter derivado também do alfabeto fenício modificado), o Alcorão é ainda hoje ensinado em sua escrita original, do contrário, parte de sua poética é perdida com a tradução. A religião muçulmana, ao proibir representar o rosto de Deus ou do Profeta, fez com que a escrita se tornasse o elemento decorativo essencial das mesquitas e de todos os outros monumentos. O árabe, também é escrito e lido da direita pra esquerda e não possui vogais. Suas 18 letras, associadas a pontos, somam um total de 29. A imagem no topo deste artigo é um dos 99 nomes de Alá em árabe, e em si mesma, um poema visual dessa escrita prodigiosa que se presta às mais variadas metamorfoses.

 

 

Assim, a escrita quando surge encontra como missão registrar e preservar as escrituras sagradas do Monoteísmo na voz de um Deus todo-poderoso, que falou a alguns eleitos deixando a estes a missão de difundir seus ensinamentos. Não é a toa que a palavra Escritura, designa, antes de qualquer coisa, textos sagrados.

sábado 08 novembro 2008 11:42


Mercado Estético de Políticos-Guerreiros

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Com o declínio de Atenas (Grécia) e a expansão helenística (Roma), desenvolveu-se um autêntico mercado da arte onde se pagavam somas quantiosas pelas obras-primas e a partir do qual floresceram as coleções particulares.

 

A comercialização da arte, concomitante à expansão do Império Romano, mantinha o modelo grego ideal de beleza. E era mesmo moda entre as famílias patrícias a escolha de seu artista favorito, que geralmente eram gregos, e lhes pagar elevadas quantias por suas obras. Os pátios e os jardins eram decorados com as estátuas desse colecionismo, e a apropriação privada da arte fez a mesma tomar uma dimensão humana e democrática, quando antes ela era destinada à realeza teocrática.

 

Mas a expansão do Império Romano faz surgir uma classe de guerreiros bem sucedidos, que passam a representar o poder de Roma nas terras conquistadas e adquirem status de patrícios, donos de terras e coletores de impostos ao poder central do Império. Por isso, quando falamos em uma dimensão democrática da arte do período romano, quase sempre ainda grega, temos em mente a origem mesma da palavra, em seu sentido mais de elite democrática que representa o demos/povo, que do povo em si. A grande maioria da população era campesina, e continuava pagando seus tributos, a um ou a outro mando.

 

Numa época onde as fronteiras eram estabelecidas pelas políticas da guerra, era comum tanto a remarcação das mesmas, quanto a troca dos líderes. As guerras de conquista eram o motor do Império Romano que se expandia atribuindo e recebendo influências das culturas dominadas.

 

Entretanto, a posição do artífice permanece ambivalente, como em toda a Antiguidade. Agora, porém, alguns artistas viviam em condições sócio-econômicas mais opulentas, apesar de não gozar da dignidade intelectual concedida às artes liberais: filosofia, música e poesia. Ao menos, os artistas podiam praticar sua arte com certa liberdade temática, ao contrário dos artesãos pré-clássicos, que aprendiam um padrão pré-estabelecido a ser perpetuado por meio da repetição fiel de formas e conteúdos. Como no exemplo máximo do Egito faraônico, cuja arte manteve-se praticamente inalterada ao longo de milênios.

 

Podemos perceber, para fins de análise, que quando o artista faz sua arte a mando de uma elite, está arte tende a ser idealista. A execução de detalhes do cunho pessoal do artista não é vista com interesse, já que o ‘autor’ desta arte é desvalorizado e permanece oculto, como mero artesão, operário de uma arte idealizada por quem detém o poder e os meios para a promover, e assim, promove a si mesmo enquanto poder que constrói monumentos ao deleite de seu próprio ócio. É de fato, uma arte idealizada por quem não quer nem suar, sujar ou cansar o próprio corpo; arte ideológica, portanto.

 

Quando a arte começa a ser praticada mais individualmente, ela tende a ser expressionista, e expressa as qualidades individuais de quem concebe e cria suas próprias obras. A arte grega, assim como sua sucessora, a romana, tendem ao expressionismo. Como podemos observar na imagem acima, detalhe de um mosaico que retrata Alexandre encontrando com Dario III.

 

Se buscarmos sinais oníricos na arte clássica, poderemos os encontrar na representação de cenas e heróis míticos, tão comuns à arte da Antiguidade. Esse onirismo é, entretanto, coletivo; já que os mitos são os sonhos da coletividade, e são herdados culturalmente. O artista do Mundo Antigo ainda não tinha desperta a liberdade de representar seus próprios sonhos, seu lado noturno e interior; sua individualidade extrema. Para essa expressão completa e complexa será necessário um longo caminho de desenvolvimento social da figura e do status do artista, das técnicas de produção da arte e de seu lugar no mercado de consumo. Será necessário todo um contexto para que o artista tenha finalmente a liberdade necessária para produzir seus sonhos, no que chamaremos de Arte Onírica. Essa arte que terá seu berço no Renascimento, sua força motriz e matriz na Modernidade e sua apoteose na atualidade.

 

sábado 08 novembro 2008 11:38


Arte Clássica: Inteligência e Harmonia Ideal

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Se desde os Impérios Antigos, através mesmo da legitimação religiosa, a relação de parentesco mítico entre os grandes chefes e os deuses havia aproximado aqueles à imagem destes; no panteão grego, já são os deuses representados e imaginados à semelhança dos homens.

 

O Grande Império Egípcio contou com trinta e uma Dinastias Reais (mais de cinquenta Faraós) desenvolvidas num período de mais de três mil anos que é hoje dividido pela Egiptologia em dez períodos históricos. A história do Egito pode ser vista como um exemplo clássico da importância do herdeiro homem na manutenção da Dinastia Real. Quando há falta deste herdeiro, com a morte do Faraó, um novo o substituirá iniciando assim uma nova Dinastia. Esse novo Faraó, poderia ser um parente próximo ou distante, ou mesmo um general eminente, que se case com a viúva ou mesmo a filha do antigo Faraó: era sempre a linhagem nova de um Faraó que fundava uma nova Dinastia. Além disso, nos períodos finais do Império Egípcio, novos conquistadores, como Alexandre o Grande da Macedônia, autodeclaravam-se Faraós. No caso de Alexandre, um oráculo o denominou filho de Amun-Re e assim legitimou seu entronamento.

 

A mitologia grega também é repleta de histórias de homens filhos de deuses, sendo Hércules um dos mais conhecidos por seus trabalhos heróicos. O que nos interessa aqui, portanto, é a inversão: os gregos não apenas divinizaram homens, mas humanizaram deuses. Sentimentos do caráter humano, como os ciúmes, a inveja, o desejo e a vingança foram projetados aos deuses de modo que o maior modelo da arte grega é o homem: sua inteligência e sua harmonia de forma e razão, a que hoje chamamos clássicas.

 

Racionalismo e Beleza eram ideais da arte grega. A estatuária grega representa, ainda hoje, os mais altos padrões já atingidos pelo homem. O antropomorfismo (representação das formas do homem/antropo) ressaltava equilíbrio e movimento. É também na Grécia Antiga onde os artesãos passam a ser conhecidos por suas obras:

 

Praxíteles – Hermes com Dionísio menino;

Policleto – Doríforo condutor da lança;

Fídias – Zeus Olímpico, Atenéia (também foi quem decorou o Phantenon);

Miron – Discóbolo;

Lísipo – Eros a preparar o arco, Eros e Psique.

 

Apesar de a arte grega ter atingido padrões de perfeição invejados ainda nos dias atuais, seus artistas também eram considerados meros artífices. Assim, o artista da Antiguidade, Clássica ou não, era antes de tudo construtor, já que o desenvolvimento tanto da pintura quanto da escultura, dependia de modo estreito do desenvolvimento da arquitetura. Entretanto, os pintores e escultores gregos, ao contrário dos egípcios, não tiveram que ater-se à aprendizagem e repetição permanente de formas imutáveis fixadas com anterioridade, mas sim, ao tomar como referência o modelo natural, estiveram abertos a um progresso expressivo ilimitado (A Arte e o Artista in: História Geral da Arte. Edições Del Prado, 1996. p.49.).

 

E é assim, que na história da arte ocidental como hoje a estudamos, que o artífice executor de formas precedentes deu passagem ao artista com personalidade própria e com vontade de originalidade. Os artistas gregos rivalizavam entre si e escreviam tratados – como o de Policleto sobre as proporções do corpo humano – mas ainda assim, sofriam a velha descriminação contra o trabalho manual e remunerado; o que não acontecia aos músicos e poetas. Plutarco, por exemplo, escreveu: “Gozamos com a obra e desprezamos o autor”. Luciano, estendeu-se mais em enfatizar a dicotomia:

 

“Ainda que te convertas em um Fídias ou um Policleto e cries muitas obras maravilhosas, todos elogiarão tua obra, é certo, mas nenhum dos que te vêem querá ser como tu; pois seja como seja tua obra serias considerado um artífice, um artesão, um que vive do trabalho das suas mãos.”

sexta 24 outubro 2008 17:11


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